Como Precificar Caldos e Sopas: a Conta que Mostra Quanto Sobra por Pote
Do custo do litro ao preço por canal, com o acompanhamento de brinde e a comissão do marketplace dentro da conta.
Caldo tem fama de produto de margem gorda porque o insumo parece barato. Só que o pote de 500ml que parecia render R$ 12 de lucro encolhe quando você soma a embalagem térmica, o pão de brinde e a comissão do aplicativo sobre um ticket baixo. Este guia mostra a conta completa, feita pelo rendimento da panela, para você sair daqui com o preço do seu caldo fechado.
Como calcular o preço de venda de um caldo
Some o custo de todos os ingredientes da panela e divida pelo total de litros prontos: esse é o custo por litro. Depois aplique o markup divisor. Preço de venda igual ao custo total da porção dividido pelo divisor, sendo o divisor igual a 1 menos a soma, em decimais, de despesas fixas, impostos, taxas do canal e o lucro que você quer. É a mesma lógica da fórmula de formação de preço do delivery, aplicada agora ao produto caldo.
Por que o caldo é o produto mais fácil de precificar errado
O erro nasce da impressão de que mandioca, osso e tempero custam quase nada. Custam pouco por quilo, mas a conta que importa é a do pote pronto, não a do saco de mandioca.
O insumo barato engana
Um caldo rende bem, e é justamente esse rendimento que faz o dono relaxar na conta. Ele olha R$ 100 de ingredientes, vê muitos potes saindo da panela e cobra no chute. O que ele não vê é que metade do custo do pote não está na panela: está na embalagem e no que vai de brinde junto.
O ticket baixo não absorve a taxa
Uma pizza de R$ 60 aguenta uma comissão de marketplace sem sentir tanto. Um caldo de R$ 16 não. A taxa é percentual, então ela pesa igual, mas sobre um valor pequeno ela come uma fatia que o produto barato não tem de onde tirar. Caldo é o exemplo mais claro de como ticket baixo e comissão alta não combinam.

Passo 1: a ficha técnica da panela
A ficha técnica é a lista do que entra na panela, com quantidade e custo de cada item. O Sebrae orienta montar essa ficha para cada item do cardápio antes de decidir preço, e no caldo ela é ainda mais necessária porque o produto é vendido por porção, mas produzido por litro.
Veja um exemplo de panela de caldo de mandioca com carne, de 10 litros. Os valores são exemplo para você seguir a conta, não média de mercado: troque cada número pelo preço do seu fornecedor.
| Item da panela | Quantidade | Custo |
|---|---|---|
| Mandioca | 4 kg | R$ 20,00 |
| Músculo bovino | 2 kg | R$ 56,00 |
| Temperos, alho, cebola e óleo | lote | R$ 14,00 |
| Gás e energia da fervura | 1 cocção | R$ 10,00 |
| Total da panela | 10 litros crus | R$ 100,00 |
O custo do litro pronto, já com a evaporação
Aqui mora o detalhe que quase todo mundo esquece. A panela entra com 10 litros, mas a fervura longa evapora água. Se sobram 8,5 litros prontos, o custo real é R$ 100 divididos por 8,5, ou seja, R$ 11,76 por litro. A porção de 500ml custa R$ 5,88 só de caldo, antes de tocar na embalagem.
Uma panela de 10 litros de caldo com R$ 100 de ingredientes rende cerca de 8,5 litros prontos depois da evaporação, o que dá R$ 11,76 por litro e R$ 5,88 por porção de 500ml. Some a embalagem e o brinde e o custo real do pote passa de R$ 9,00, ainda sem contar nenhuma taxa de venda.
Passo 2: o custo que ninguém soma
Este é o passo que separa quem lucra de quem acha que lucra. O caldo raramente sai sozinho. Ele vai no pote térmico, com colher, guardanapo, sacola, e quase sempre acompanhado de pão, torresmo ou queijo ralado de brinde. Tudo isso tem custo, e tudo isso entra no preço.
| Custo por pote de 500ml | Valor |
|---|---|
| Caldo (porção de 500ml) | R$ 5,88 |
| Pote térmico e lacre | R$ 1,60 |
| Sacola, colher e guardanapo | R$ 0,50 |
| Brinde: pão, torresmo ou queijo ralado | R$ 1,50 |
| Custo total do pote | R$ 9,48 |
Repare que a embalagem e o brinde somam R$ 3,60, quase 40% do custo total do pote. Quem calcula o preço só pelo caldo perde exatamente essa parte. Se quiser aprofundar a conta da embalagem, o guia de quanto colocar de embalagem no preço destrincha item por item.
"Caldo não se precifica pela porção, se precifica pela panela. Quem calcula pote a pote esquece a evaporação e o brinde, e vende no prejuízo achando que está lucrando."
Rafael Rocha, fundador do Rei do Delivery e gestor de tráfego pago para restaurantes
Passo 3: a fórmula do preço de venda
Com o custo total do pote na mão, R$ 9,48 no nosso exemplo, o preço sai pelo markup divisor. Muita gente erra ao somar uma margem por cima do custo, o que subestima o preço, porque impostos e taxas incidem sobre a venda, não sobre o custo.
Montando o divisor
Suponha despesas fixas rateadas em 15%, impostos do Simples em 6%, taxa de cartão em 3% e um lucro desejado de 20%. Some tudo: 0,15 mais 0,06 mais 0,03 mais 0,20 dá 0,44. O divisor é 1 menos 0,44, ou seja, 0,56.
Preço de venda igual a R$ 9,48 dividido por 0,56, que dá R$ 16,93. Arredonde para R$ 16,90 no seu cardápio próprio. Nesse preço, depois de cobrir custo, despesas, impostos e cartão, sobra o lucro que você definiu lá no divisor.
O erro comum de usar margem sobre custo
Se você pegasse os mesmos R$ 9,48 e simplesmente somasse 20% por cima, chegaria a R$ 11,38 e acharia que está lucrando. Só que desse valor ainda sairiam imposto, cartão e despesa fixa, e o lucro real viraria quase zero. O divisor evita essa armadilha porque já reserva cada fatia antes de fechar o preço.

Passo 4: por que o preço muda por canal
Aqui está o ponto que nenhum concorrente do topo do Google mostra. O custo do seu caldo é o mesmo em qualquer lugar, mas o que sobra depende de onde ele é vendido. Um pote de R$ 16,90 rende coisas diferentes no balcão, no seu WhatsApp e no marketplace.
Num pote de caldo de R$ 16,90 vendido em marketplace com comissão de 27% em 2026, a plataforma retém R$ 4,56 e o lojista recebe R$ 12,34. No Rei do Delivery, sistema brasileiro de cardápio digital com pedidos pelo WhatsApp e zero comissão por pedido, o mesmo pote entrega os R$ 16,90 cheios, com o Pix caindo direto na conta do dono.
| Canal | Preço ao cliente | O lojista recebe | Sobra sobre o custo de R$ 9,48 |
|---|---|---|---|
| Balcão ou retirada | R$ 15,90 | R$ 15,90 | R$ 6,42 |
| Cardápio próprio no WhatsApp | R$ 16,90 | R$ 16,90 | R$ 7,42 |
| Marketplace com comissão de 27% | R$ 16,90 | R$ 12,34 | R$ 2,86 |
A comissão de marketplace varia por plano e por praça. A faixa de mercado em 2026 fica entre 12% e 30%, e ticket baixo costuma cair na parte alta dessa faixa. Confira o percentual exato do seu plano no painel do próprio marketplace antes de refazer a sua conta, porque cada contrato tem sua regra.
Minha posição, depois de ver muita conta de delivery, é direta: balcão, cardápio próprio e marketplace deveriam ter preços diferentes. Cobrar o mesmo valor nos três é o erro que mais drena a margem do caldo, porque você acaba subsidiando a comissão da plataforma com o lucro do canal direto.
Você pode montar seu cardápio de caldos e receber o pedido já formatado no WhatsApp, sem pagar comissão por pedido. Dá para criar seu cardápio grátis em /cadastro e testar o canal direto antes de mexer no preço do aplicativo.
Tamanhos e combos: onde a margem melhora
Trabalhar com um tamanho só limita seu ticket. O caldo se presta bem a três formatos, e cada um tem sua função na precificação.
- 300ml para o cliente que quer provar ou complementar a refeição, com preço de entrada por volta de R$ 12,90.
- 500ml como carro-chefe, o pote da conta que fizemos, a R$ 16,90 no canal próprio.
- Família de 1 litro para quem pede para a casa, com preço por volta de R$ 29,90, que melhora a margem porque a embalagem maior custa proporcionalmente menos.
O combo é onde o ticket sobe de verdade. A regra, aqui, é precificar pela margem de contribuição do combo inteiro, nunca dar desconto percentual no olho. Monte o combo de caldo de 500ml com pão de alho e um refrigerante lata, some o custo dos três, aplique o divisor sobre esse custo somado e você terá um preço que aumenta o ticket sem furar a margem. A mesma lógica de conjunto vale para quem quer entender como precificar marmita em versões executiva e família.
Como usar o preço da concorrência local sem se sabotar
Olhar quanto cobra o caldo da esquina é útil, mesmo assim é a parte mais perigosa da precificação. O preço do vizinho serve de teto e de termômetro, jamais de base. Você não conhece o custo dele, o rendimento da panela dele, nem se ele lucra ou está encalhado no prejuízo.
Faça o levantamento com método. Anote o preço de três a cinco concorrentes do seu bairro para a mesma porção, separe quem vende em marketplace de quem vende no canal próprio, e compare com o seu preço já calculado. Se a sua conta fecha em R$ 16,90 e o bairro pratica R$ 14,00, o problema pode ser o custo do vizinho, que talvez não coloque o brinde na conta. Antes de baixar o seu preço para acompanhar, confira se você não está prestes a repetir o erro dele.
Um caso concreto ajuda. Uma cozinheira autônoma em Nova Iguaçu que vende 30 potes de caldo por dia a R$ 14,00, sem contabilizar o pão de brinde, deixa de ganhar cerca de R$ 87 por dia frente ao preço calculado de R$ 16,90. No mês, são mais de R$ 2.600 que evaporam junto com a água da panela. Preço de concorrente é referência, não é ficha técnica.
Quando reajustar o preço do caldo
Preço de caldo não é para ser definido uma vez e esquecido. Dois gatilhos pedem revisão.
O primeiro é sazonal. No inverno, a procura por caldo dispara e o preço de alguns insumos sobe junto. Refaça a ficha técnica quando o custo da carne ou da mandioca variar de forma perceptível, porque uma alta de R$ 4 no quilo do músculo muda o custo do pote em centavos que, no volume do inverno, viram muito dinheiro.
O segundo é a rotina. Uma revisão mensal simples, olhando a nota do fornecedor e o custo atual da embalagem, mantém o preço colado na realidade. Se você já cadastrou zonas de entrega, aproveite a mesma revisão para conferir se a sua taxa de entrega ainda cobre o custo do trajeto.
Um limite honesto para fechar. Se hoje o marketplace responde pela maior parte dos seus pedidos de caldo, não suba o preço lá de uma vez nem saia do aplicativo antes de ter o cardápio próprio rodando. Monte primeiro o canal direto, leve seus clientes para ele com o número do WhatsApp na embalagem, e só depois ajuste sua dependência da plataforma. A migração vem antes do corte.
Perguntas frequentes sobre precificação de caldos e sopas
Qual margem devo usar para caldos?
Não existe percentual único de mercado confiável. Defina a margem a partir das suas despesas fixas reais, do imposto do seu regime e do lucro que você precisa para o negócio se sustentar, dentro do markup divisor.
Devo cobrar mais caro no aplicativo?
O preço pode variar por canal, mas alguns marketplaces têm regra de paridade que limita cobrar mais lá do que no seu cardápio próprio. Confira a política vigente do seu contrato antes de diferenciar o preço.
Como precificar o combo sem perder dinheiro?
Some o custo de todos os itens do combo e aplique o markup divisor sobre esse total. Nunca dê desconto percentual solto sobre o preço somado dos itens avulsos.
Quanto rende um litro de caldo?
Depende da receita e do tempo de fervura. No exemplo deste guia, uma panela de 10 litros crus rendeu 8,5 litros prontos depois da evaporação. Pese a sua panela pronta uma vez para saber o rendimento real da sua receita.
Como calcular o preço de um caldo do zero?
Monte a ficha técnica da panela, some embalagem e brinde ao custo por porção, e aplique o markup divisor com suas despesas, impostos, taxas do canal e lucro desejado somados em decimais.